Feira do Pirarucu de Manejo celebra seis edições com valorização da conservação no PAE Tapará em Santarém
/Todos os anos, quando o pirarucu de manejo chega à feira, representa o resultado de noites em claro de fiscalização, acordos comunitários respeitados à risca e a decisão coletiva de proteger o lago para garantir o amanhã
Na sexta edição da feira, 3,5 toneladas foram adquiridas pela população de Santarém. Para Antônio José Bentes, coordenador da Sapopema, a feira é a parte visível de um esforço que acontece o ano inteiro. Ele explica que “todo o estoque pesqueiro dessa região tem sido conservado, tem aumentado abundantemente e isso quem ganha é a comunidade porque gera segurança alimentar na comunidade, gera renda para as comunidades, mas ganha a população porque tem acesso a um produto de qualidade, um produto que é legalmente produzido e tem uma mensagem de adaptação climática num momento muito difícil em que o mundo vive”. Ao lembrar que, em cinco anos, mais de 12 toneladas de peixe de manejo já foram ofertadas à população do Baixo Amazonas, principalmente em Santarém, ele reforça que a feira também carrega um recado político: “é preciso regulamentar o Pirarucu. A mensagem que tá por trás desse esforço é uma participação mais efetiva do Estado para que essa atividade de conservação seja valorizada”.
O pirarucu que chega à feira não passa por atravessador. Sai direto do lago. O presidente do conselho geral de pesca do Tapará, Rionaldo Pereira, descreve com orgulho que é “peixe vivo, fresquinho na hora, peixe manejado. Não é peixe de terceirizado, é peixe pegado diretamente do lago para a feira. Não é peixe de piscicultura. É peixe de lago natural”.
Cinco comunidades participam diretamente do manejo. Cerca de 60 pescadores atuam na linha de frente, mas, como ele faz questão de frisar, o impacto é coletivo: “são em torno de 200, 300 pessoas envolvidas e mais de 800 famílias que fazem parte desse projeto. Todos são responsáveis pela fiscalização”. Para ele, o manejo é prático e rigoroso: “é fiscalização, preservação e acima de tudo não fazer pesca predatória. A gente tem uma cota de 30% acima da contagem que faz todo ano. Tem que respeitar”.
Para Ronaldo dos Santos, coordenador do núcleo de base de Santa Maria, a feira começa dias antes, na organização coletiva do trabalho à beira do lago. Ele conta que “tem a equipe que tá na água pescando, tem a equipe que tá aqui tratando, tem outra que vai carregar, e outra já preparada para o sábado para ir para a feira. É um trabalho que envolve muitas mãos”. O que mais o emociona, no entanto, é pensar na continuidade: “eu tenho um filho meu que é meu parceiro de pesca. Ele já vai pegando a experiência para dar continuidade. No dia que a gente parar, nossos filhos vão ver que foi uma coisa boa que começou lá atrás”.
Em Pixuna do Tapará, a presidente da comunidade, Genilda Silva Carvalho, fala do manejo como quem fala de uma missão de vida. Ela explica que “o manejo é preservação. É você cuidar para os outros não levarem aquilo que você tem. Nós fica trabalhando toda noite, todos os dias em fiscalização”. São seis equipes que se revezam de março a novembro. Ela lembra que já viveram situações duras: “a gente já conseguiu pegar de 30 a 1 roubando. Quando a gente retém, a gente tira o material e entrega para a SEMA”. Depois de mais de 40 anos de trabalho, tirar mais de 30 pirarucus em uma pescaria, somando mais de 600 quilos, ainda provoca emoção: “é uma alegria muito grande. Dá um incentivo para a gente trabalhar mais”.
A pesquisadora Adria Oliveira, da Sapopema, acompanha a pescaria e ajuda a traduzir o que esse trabalho representa. Segundo ela, “o manejo do Pirarucu faz parte de um processo de ordenamento pesqueiro e também de ordenamento territorial. A partir dos lagos, as comunidades traçam seus mecanismos de gestão do território”. Ela destaca ainda que o pirarucu cumpre um papel ecológico e social ao mesmo tempo: “ao mesmo tempo em que ele atua no equilíbrio do ecossistema, ele é fonte de geração de renda e segurança alimentar para as populações ribeirinhas e para quem está na cidade e consome essa proteína”.
Para o secretário da SEMAP Santarém, Bruno Costa, a resposta do público na feira confirma a importância desse esforço coletivo. Ele observa que “a população atende esse chamado e a gente já imagina que logo vai acabar o estoque. Isso fortalece a pesca artesanal, a preservação ao meio ambiente e a união das instituições”.
Quando o pirarucu acaba rápido na banca, não é só sinal de sucesso de venda. É sinal de que a cidade está reconhecendo, no prato, o resultado de acordos comunitários, de vigilância permanente, de cotas respeitadas e de lagos protegidos. A feira é o momento visível de um trabalho que acontece o ano inteiro e que segue garantindo que, no próximo ano, tenha pirarucu de novo.
Fotos: Samela Bonfim/Sapopema.
