Tecnologias digitais reforçam monitoramento territorial em comunidades da Amazônia com início do Projeto Indica Tapajós

Instalações e treinamentos começaram em quatro comunidades do PAE Tapará, Pixuna do Tapará, Santa Maria, Tapará-Miri e Costa do Tapará, que receberam internet satelital, drones, celulares e GPS para fortalecer o monitoramento territorial e o manejo do pirarucu. As atividades seguem agora para outras localidades da região

Entre os dias 10 e 14 de março, comunidades do PAE Tapará, em Santarém (PA), receberam a primeira rodada de instalação de tecnologias digitais e formação para monitoramento territorial no âmbito do Projeto Indica Tapajós, iniciativa desenvolvida pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGVces) e a Sociedade para Pesquisa e Proteção do Meio Ambiente (Sapopema), com financiamento da União Europeia.

Durante cinco dias de atividades, representantes de organizações comunitárias participaram de formações práticas e receberam kits de inclusão digital com antenas de internet, computadores, celulares, GPS e drones. Os equipamentos vão apoiar ações de monitoramento territorial independente, com foco em diferentes ações. No Tapará apoiarão na vigilância de acordos de pesca e no fortalecimento do manejo comunitário do pirarucu.

A iniciativa integra um conjunto de estratégias voltadas à inclusão digital e ao fortalecimento das organizações locais que atuam na defesa de seus territórios. “Nós estamos no PAE Tapará desenvolvendo uma série de iniciativas voltadas para inclusão territorial e para o fortalecimento do monitoramento territorial independente. Esse é um momento muito importante para fortalecer essas quatro organizações, que são as primeiras de uma série de 20 selecionadas no projeto Indica Tapajós”, explicou Samela Bonfim, gestora do programa de comunicação comunitária e inclusão digital da Sapopema.

A atividade também incluiu formações sobre uso da internet segura, operação de drones, GPS e aplicativos de celular voltados ao monitoramento territorial. “Jovens, mulheres e pessoas que atuam frente a frente com esse monitoramento estão sendo treinados para utilizar essas tecnologias digitais, conseguir coordenadas geográficas, realizar denúncias mais qualificadas e vigiar seus lagos com mais segurança”, destaca.

A mobilização das organizações comunitárias e o engajamento dos pescadores foram marcantes em meio a uma semana chuvosa no inverno amazônico. “Foi uma semana muito rica, tanto pelas contribuições para o território quanto pela mobilização das associações de pescadores da região. Fiquei muito impressionado com o engajamento dos pescadores no monitoramento da pesca e na vigilância das regras do acordo de pesca”, esclareceu Eric Macedo, pesquisador do FGVces.

O uso de tecnologias digitais também foi pensado como estratégia para ampliar a participação da juventude nas ações de proteção territorial. “A gente focou no uso de tecnologias digitais, como drones, GPS e aplicativos de celular, justamente para criar um apelo para que os jovens se engajem nessas atividades que são fundamentais para a preservação dos recursos essenciais para a vida das comunidades”, complementou.

Nas comunidades do Tapará, os equipamentos chegam para fortalecer um trabalho de vigilância e manejo que já vem sendo realizado pelos próprios pescadores. “Essa chegada desses equipamentos para nossa região vai evoluir muito o nosso trabalho nos acordos de pesca. A fiscalização vai ser mais extensa e vai ajudar muito a combater a pesca predatória e pessoas que não querem respeitar o acordo”, avalia Rionaldo Pereira, presidente do Conselho Regional de Pesca do Tapará.

O fortalecimento dos acordos comunitários é apontado como uma estratégia central para garantir a conservação dos recursos pesqueiros e a segurança alimentar das famílias. “A importância do acordo de pesca para a região é muito grande, porque a gente faz a preservação do futuro da nossa família e das nossas crianças”, reforça.

Na comunidade Santa Maria do Tapará, a chegada dos equipamentos é vista como um reforço para o monitoramento do manejo do pirarucu e de outras espécies. “Esse equipamento veio para somar principalmente na fiscalização do monitoramento da pesca. Sabemos que enfrentamos muitas dificuldades para fiscalizações, então esses equipamentos vieram para melhorar muito a nossa comunidade”, comenta Odirlei Souza, presidente da comunidade.

Na comunidade Pixuna, a iniciativa também foi recebida como um instrumento para fortalecer as ações de conservação. “É de grande importância receber esse projeto na nossa comunidade. Veio para somar como um instrumento para melhorar o acordo de pesca e o manejo do pirarucu”, observa Lino, presidente da associação local.

O treinamento para pilotagem de drones despertou interesse entre os participantes, especialmente entre os jovens envolvidos nas ações de monitoramento. “Foi a primeira vez que pilotei um drone e foi uma maravilha. Ver ele subir, descer e filmar foi muito bom. Vai servir para monitoramento de lago e para identificar invasões”, conta um Odirclei Viegas, participante da formação.

As lideranças comunitárias avaliam que a tecnologia pode ampliar o alcance das ações de fiscalização, principalmente em áreas de difícil acesso. “Esse equipamento vai nos ajudar muito na fiscalização, porque ainda existem irregularidades dentro dos nossos acordos. Muitas vezes a gente não tem acesso para chegar em determinados lugares, mas com o drone vai ser possível identificar essas situações”, explica Ronaldo Pereira dos Santos, coordenador da base de Pixuna do Tapará.

A chegada dos equipamentos também fortalece um trabalho comunitário construído ao longo de décadas em torno do manejo do pescado. “Nós já trabalhamos há mais de 25 anos com manejo e monitoramento do pescado. Um equipamento como esse vem só fortalecer o nosso trabalho e ajudar no desenvolvimento do conhecimento sobre a natureza”, ressalta Amarildo Ribeiro Fernandes.

Para as lideranças locais, o projeto representa um passo importante no fortalecimento das estratégias comunitárias de proteção dos lagos e territórios pesqueiros. “Esse projeto vem fortalecer muito o nosso trabalho comunitário e a vigilância dos lagos. Era um sonho que nós estávamos esperando”, celebra Geraldo Ferreira de Santos, coordenador do núcleo de pesca da Costa do Tapará.

O Projeto Indica Tapajós irá apoiar 20 organizações de povos e comunidades tradicionais da bacia do Tapajós e do Baixo Amazonas com equipamentos, conectividade e capacitações voltadas ao monitoramento territorial independente. As organizações receberão kits digitais e antenas de internet, com o custo do serviço garantido pelo projeto por um período de 18 meses.

Além do acesso à conectividade, o projeto prevê formações sobre monitoramento territorial independente, uso de equipamentos e aplicativos, segurança digital, formulação de denúncias e gestão comunitária da internet. As organizações participantes também passam a integrar a Rede de Monitoramento Territorial Independente (Rede MTI), fortalecendo a articulação entre comunidades que atuam na proteção de seus territórios na Amazônia.