Monitores ambientais acompanham situação das águas em comunidades da Flona do Tapajós
/Projeto Sentinela Tapajós liderado pela Sapopema em parceria com a WWF Brasil e TNC e organizações de base acompanha temperatura, oxigênio, nível e transparência da água, com participação de monitores comunitários
Gerar informações sobre as condições dos ambientes aquáticos utilizados pelas comunidades para pesca, alimentação e outras atividades cotidianas é uma das frentes do projeto de monitoramento ambiental desenvolvido na região da Floresta Nacional do Tapajós. A iniciativa envolve moradores no acompanhamento de parâmetros da água e busca construir uma base de dados a partir dos próprios territórios.
Diego Campos, consultor técnico da Sapopema e responsável pelo projeto, explica que o trabalho permite acompanhar rios, lagos e igarapés utilizados pelas famílias das comunidades. “O monitoramento ambiental é uma ferramenta muito importante para verificarmos as condições dos rios, dos lagos, dos igarapés, onde as famílias das comunidades aqui da Flona utilizam esses ambientes para pesca, para o seu lazer”, afirma.
Entre os parâmetros acompanhados estão oxigênio, temperatura, nível da água e transparência. Os dados são registrados com a participação de monitores das próprias comunidades e poderão ser utilizados para acompanhar mudanças nos ambientes aquáticos e subsidiar discussões relacionadas à gestão dos territórios. “O projeto também fortalece as comunidades com a geração de dados sobre oxigênio, temperatura, nível da água, a transparência. Isso nos dá uma base para fortalecer ainda mais a gestão das comunidades”, explica.
A produção dessas informações está relacionada às discussões sobre atividades que podem provocar alterações nos ambientes utilizados pelas comunidades. “O projeto de monitoramento ambiental é uma ferramenta muito importante para as comunidades, porque vão gerar dados, informações que possam subsidiar discussões dentro das atividades que vêm causar algum impacto ambiental na região.”
A participação comunitária é parte da metodologia. Jovens e moradores atuam como monitores, realizam medições e passam a acompanhar os dados gerados nos locais onde vivem. “Com a participação dos jovens comunitários aqui da região que fazem parte do programa, isso ajuda mais na autonomia e no protagonismo das comunidades em relação a essas informações, porque essas informações são para comunidade, são geradas para comunidade, justamente para comunidade ter esse conhecimento sobre o que tá acontecendo nos ambientes aquático aqui da região da Flona”, destaca Diego.
A geração de dados responde também a questões que já fazem parte das discussões entre moradores. Mudanças na coloração da água, períodos de seca, temperatura e alterações percebidas na pesca aparecem entre as preocupações relatadas pelas comunidades.
Dionildo Faria Ribeiro, que integra a coordenação comunitária e atualmente responde pela presidência de sua comunidade, relaciona o monitoramento às transformações observadas no Tapajós nos últimos anos. “Para nós, o monitoramento é muito importante para nós sabermos qual a qualidade da água que nós temos ainda tomando banho, qual a qualidade da água da onde nós tiramos o peixe para a nossa alimentação.”
Ele relata que a água do rio já foi utilizada diretamente pelas famílias antes da implantação de poços nas comunidades e que moradores vêm percebendo mudanças em sua aparência. “Antes ela era uma água clara, bem limpa mesmo. E até quando não tinha os poços artesianos nas comunidades, nós usávamos a água do Rio Tapajós, que era limpa mesmo. E hoje a gente olha para ela, já vê uma coloração, uma parte branca, uma parte esverdeada.” Medir diferentes parâmetros permitirá relacionar essas percepções com informações registradas ao longo do tempo. A temperatura está entre os aspectos citados pelo morador. “Agora, nós queremos saber o tanto de oxigênio que ainda existe e a temperatura, porque, na verdade, esses últimos anos, para você tomar um banho no rio a partir do meio-dia, você vai encontrar uma água de alta temperatura.”
As secas recentes também aparecem em sua avaliação. “Esses 2 anos que passaram, as secas foram muito grandes. Então, essa medida nós já contemplamos que tá existindo, né, a mudança, o rio tá secando.” Dionildo também associa a produção de dados às discussões sobre intervenções previstas para o Rio Tapajós, entre elas a dragagem. “A preocupação maior é a dragagem do Rio Tapajós. E isso vai interferir muito no oxigênio, vai mexer com toda a porcaria que tem aí no fundo.”
Manuel Messias, monitor do projeto de monitoramento ambiental, também relata alterações percebidas ao longo dos anos. “No decorrer dos anos, acho que uns 10, 15 anos para cá, vem acontecendo uma mudança significativa na qualidade e na claridade da água. Que era mais, digamos assim, mais clara, agora já tá um pouco mais esverdeada com lodo.”
Para ele, o acompanhamento pode ajudar a identificar o que está ocorrendo. “A importância desse avaliamento é que possa investigar se há um meio de ver o que que tá acontecendo na água.” A continuidade das medições permitirá que os monitores acompanhem variações de parâmetros como transparência e oxigênio e comparem registros feitos em diferentes períodos.
Na comunidade Pini, a preocupação com a água também está relacionada à pesca. Reinaldo Patrocínio de Araújo, presidente da Associação da Comunidade conta que moradores observam mudanças na transparência do Tapajós. “Primeiro lugar, nós tem uma água hoje barrenta, né, que de primeiro não tinha, que a água Tapajós era limpa, porque a gente enxergava muito, muito no fundo, e hoje em dia a gente não enxerga.”
O presidente da associação cita a mineração e o escoamento de sedimentos entre as questões debatidas pelos moradores, mas ressalta que parte dessas relações ainda precisa ser investigada. É nesse ponto que o monitoramento pode contribuir com dados produzidos ao longo do tempo. Reinaldo relaciona ainda as alterações percebidas aos recursos pesqueiros. “Como nós tem uma pesca esportiva aqui, nós estamos achando que tá afetando os peixes na nossa área, né? Então isso aí tá prejudicando. Para nós tá prejudicando. A gente já vê peixe morto tempo de seca, né? Não existia isso aqui.”
Michel Oliveira de Pini participa como monitor ambiental. A rotina do projeto permite acompanhar oscilações no nível e na temperatura da água. “Tem vez que ela tá meio gelada, tem vez que ela tá quente, com a temperatura muito alta. E esse projeto aí tá fazendo que a gente fique por cima do jeito da temperatura, do nível da água, como é que tá o nível, se tá baixando, se tá subindo.”
Michel também relata períodos em que a água apresenta maior quantidade de sedimentos. Para os moradores que atuam na pesca, a alteração interfere diretamente nas atividades. “Quando chove muda o ambiente da água, fica muito barrenta.”
Ele explica como essa situação chega à rotina de quem pesca: “Atrapalha, que suja muito as rede de pesca. E fica a água muito suja, não tem como pescar de anzol, porque os peixes quase não enxerga a isca, porque fica muito sujo.” Para Michel, participar do monitoramento passou a permitir uma leitura mais frequente das condições do rio. “Agora a gente fica por dentro quase do nível da água, da temperatura.”
