Projeto ViverBem fortalece turismo comunitário, geração de renda e conservação em Santarém e Belterra
/Executado pela Sapopema, projeto foi construído a partir de demandas dos territórios, reunindo ações de infraestrutura, formação, recuperação ambiental e adaptação climática para fortalecer a autonomia de comunidades tradicionais e indígenas do oeste do Pará
Transformar demandas antigas em oportunidades para fortalecer os territórios, valorizar os modos de vida tradicionais e ampliar as possibilidades de geração de renda. Essa é a proposta do projeto ViverBem – Comunidades Resilientes em Belterra e Santarém, lançado pela Sociedade para Pesquisa e Proteção do Meio Ambiente (Sapopema) com apoio do Fundo Caixa Socioambiental em encontro com organizações parceiras e lideranças comunitárias nesta sexta-feira (23). A iniciativa será desenvolvida entre junho de 2026 e junho de 2029, articulando turismo de base comunitária, conservação da sociobiodiversidade, fortalecimento organizacional e estratégias de enfrentamento às mudanças climáticas.
Construído a partir de demandas apresentadas pelas comunidades e organizações parceiras, o projeto busca fortalecer o protagonismo de povos indígenas, ribeirinhos, pescadores artesanais e grupos agroextrativistas na construção de alternativas sustentáveis de desenvolvimento. A proposta reconhece que a floresta, os rios, os conhecimentos tradicionais, as práticas culturais e as atividades produtivas formam um conjunto inseparável na vida desses territórios.
O ViverBem reúne seis eixos de atuação: turismo de base comunitária e infraestrutura sustentável; governança territorial e monitoramento comunitário; adaptação às mudanças climáticas; recuperação ambiental e reflorestamento comunitário; comunicação comunitária e visibilidade territorial; e formação comunitária e fortalecimento organizacional. Entre as ações previstas estão a implantação de sete estruturas comunitárias voltadas ao turismo de base comunitária, oficinas de formação, intercâmbios entre comunidades, elaboração de planos climáticos e iniciativas de recuperação ambiental com espécies nativas.
Adria Oliveira, pesquisadora da Sapopema, destacou que o lançamento representa a passagem de uma etapa de construção e aprovação da proposta para um momento de socialização com os parceiros e preparação para a execução das ações. O processo foi desenvolvido coletivamente, considerando as necessidades identificadas nos territórios e as prioridades apontadas pelas organizações envolvidas. “Hoje foi esse momento de socialização e também de confraternização dessa conquista tão importante, que foi conseguir captar recurso para que possam ser executadas as ações”, destaca.
A pesquisadora ressalta que o projeto responde a demandas antigas, especialmente relacionadas à estruturação do turismo de base comunitária. Para ela, o apoio técnico, a formação e o acesso a recursos podem contribuir para que as potencialidades já existentes se convertam em oportunidades econômicas para as próprias comunidades, com atenção especial às mulheres e à juventude. “Por conhecer a realidade, por ter uma atuação dentro desses territórios e saber a realidade que essas populações vivem, mas também saber o potencial que existe nesse território”.
Turismo comunitário para fortalecer a permanência nos territórios
O turismo de base comunitária é uma das estratégias centrais do ViverBem. A iniciativa pretende fortalecer empreendimentos conduzidos pelas próprias comunidades, articulando experiências culturais, conhecimentos tradicionais, paisagens, atividades produtivas e conservação ambiental. A estruturação desses empreendimentos envolve espaços adequados, formação em gestão, organização coletiva e qualificação dos serviços oferecidos.
Na Aldeia Araçazal, a expectativa é consolidar o sonho que começou a ser articulado há cerca de cinco anos, quando a comunidade apresentou à Sapopema o interesse em fortalecer sua iniciativa de turismo comunitário. A aldeia já recebe visitantes ocasionalmente, atraídos pela beleza do território, mas a ausência de infraestrutura dificulta a continuidade e a organização dessa atividade. Com o projeto, a expectativa é criar condições para receber turistas de forma mais permanente, valorizar a cultura indígena e ampliar as oportunidades para quem vive na comunidade.
“Esse sonho nosso já vem de cinco anos atrás, que a gente trouxe essa demanda para a Sapopema”, contou Zenilda Bentes, liderança do Conselho Indígena Kumaruara. A iniciativa começa a transformar essa expectativa em realidade, abrindo caminho para que a aldeia fortaleça uma atividade que já existe, mas ainda precisa de estrutura e qualificação.
A liderança também destaca o potencial do turismo para criar oportunidades de trabalho e estimular a permanência dos jovens no território. A expectativa é que a geração de renda esteja associada ao cuidado com a floresta, ao reflorestamento e à valorização da identidade cultural.
Mulheres e juventude no centro das iniciativas
A geração de renda e o enfrentamento ao êxodo rural também estão entre as prioridades das organizações que participam do projeto. Na comunidade de São Francisco, no polo Arapuns, Edilene Oliveira destaca a expectativa de fortalecer iniciativas lideradas por mulheres e criar espaços para atividades culturais e empreendimentos comunitários.
Entre os planos estão a realização de piracaias — encontros tradicionais em torno da partilha de peixes — e noites culturais, momentos que podem aproximar visitantes das manifestações culturais e dos modos de vida das comunidades. A proposta é valorizar o que já existe no território e, ao mesmo tempo, ampliar as condições para que essas experiências se transformem em oportunidades de trabalho e renda.
“O nosso sonho é fazer nossas comunidades tradicionais, fazer nossas piracaias, nossas noites culturais, mostrar o potencial que a gente tem, nós mulheres”, afirmou.
A liderança relaciona esse processo à preocupação com a saída dos jovens das comunidades em busca de oportunidades em outros lugares. Na avaliação dela, fortalecer os empreendimentos locais pode ajudar a criar alternativas de trabalho e contribuir para a permanência das novas gerações.
“O foco do polo [...] é fortalecer, ter os frutos para que os filhos das mães continuem lutando na comunidade, diminua o êxodo rural, fortaleça a questão da geração de renda”, explica.
A expectativa é que a estruturação do turismo comunitário esteja associada a outros elementos necessários para o desenvolvimento territorial, como acesso à tecnologia, qualificação profissional, organização coletiva e valorização cultural. Dessa forma, o projeto pretende contribuir para que as comunidades encontrem oportunidades de desenvolvimento sem abrir mão de seus modos de vida e de sua relação com o território.
Infraestrutura
A implantação da infraestrutura será acompanhada por ações de formação e planejamento, de modo que os espaços estejam vinculados à organização comunitária e à sustentabilidade das iniciativas. O projeto também prevê o fortalecimento de associações e cooperativas, ampliando as capacidades locais de gestão e articulação com políticas públicas e mercados.
Dionéia dos Santos, integrante do conselho fiscal do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR), explicou que o projeto representa uma oportunidade de construir espaços que atendam tanto às necessidades dos moradores quanto às das pessoas que visitarem as comunidades.
Ela destaca a importância de transformar o planejamento em ações concretas, com estruturas pensadas a partir das necessidades locais. A expectativa é que os espaços contribuam para fortalecer as iniciativas comunitárias e oferecer melhores condições para a realização das atividades previstas. “Um espaço bem legal, que atenda à necessidade do povo, das pessoas que moram lá e também das pessoas que vão lá um dia participar”, afirmou.
Além do turismo, o ViverBem incorpora ações de adaptação climática e recuperação ambiental. As comunidades participarão da identificação de vulnerabilidades, da elaboração de planos para enfrentar os impactos das mudanças climáticas e do planejamento de iniciativas de reflorestamento com espécies nativas. O uso de tecnologias acessíveis, como drones e GPS, também deverá apoiar o monitoramento ambiental e a gestão territorial.
A proposta é integrar essas frentes de atuação, reconhecendo que a conservação ambiental, a geração de renda e a permanência digna nos territórios dependem de processos articulados, construídos com participação comunitária.
Ao longo dos três anos de execução, o ViverBem pretende fortalecer as capacidades das organizações locais e ampliar as condições para que as próprias comunidades conduzam suas iniciativas. Mais do que implantar estruturas ou realizar atividades pontuais, o projeto busca consolidar caminhos de autonomia, cooperação e desenvolvimento territorial, com a sociobiodiversidade e os saberes tradicionais como elementos centrais.
