Sapopema compartilha experiências de gestão pesqueira, educação ambiental e gênero em encontro internacional no Peru
/Organização participou da II Semana Águas Amazônicas, em Iquitos, que reuniu instituições de sete países para intercâmbio de experiências e articulação de ações voltadas à conservação dos ecossistemas aquáticos da Bacia Amazônica
Experiências desenvolvidas no Baixo Amazonas com participação direta de comunidades ribeirinhas, pescadores, mulheres e comunicadores comunitários integraram os debates da II Semana Águas Amazônicas, realizada em julho, em Iquitos, no Peru. A Sapopema participou do encontro apresentando iniciativas relacionadas aos acordos de pesca e à gestão comunitária dos recursos pesqueiros, à educação ambiental e comunicação comunitária e ao protagonismo das mulheres nos territórios.
Realizado pela Aliança Águas Amazônicas, o encontro reuniu 82 participantes de mais de 30 organizações parceiras, provenientes de Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Estados Unidos, França e Peru. Entre os dias 6 e 9 de julho, representantes de organizações da sociedade civil, comunidades pesqueiras, instituições de pesquisa e governos participaram de espaços de intercâmbio e articulação sobre conservação dos ecossistemas aquáticos amazônicos.
A programação incluiu a Feira de Iniciativas, espaço em que organizações participantes compartilharam metodologias e resultados desenvolvidos em diferentes regiões da Bacia Amazônica. A Sapopema levou ao encontro três experiências que articulam conservação dos recursos naturais, participação comunitária e fortalecimento das organizações de base.
Acordos de pesca e gestão comunitária
Na área de gestão dos recursos pesqueiros, a Sapopema apresentou a experiência “Regulação da pesca artesanal: lições aprendidas com a experiência dos acordos de pesca e da gestão comunitária”.
A iniciativa sistematiza o trabalho realizado com comunidades do Baixo Amazonas na construção e implementação de regras comunitárias para o uso dos recursos pesqueiros. O processo envolve pescadores, lideranças e Conselhos Regionais de Pesca na definição de medidas de proteção dos lagos, períodos e formas de captura e estratégias para o acompanhamento dos estoques.
A experiência demonstra como os acordos de pesca podem funcionar não apenas como instrumentos de ordenamento da atividade, mas também como mecanismos de governança comunitária, fortalecendo a participação dos moradores nas decisões sobre rios e lagos dos quais dependem para alimentação e geração de renda.
A discussão dialogou com um dos principais eixos da Semana Águas Amazônicas: a necessidade de ampliar a cooperação para a conservação dos sistemas aquáticos, considerando que os rios, os peixes e seus ciclos não obedecem às fronteiras nacionais. O encontro avançou, inclusive, na articulação entre países para a implementação do Plano de Ação para a Conservação dos Grandes Bagres Migratórios Amazônicos.
Educação ambiental e comunicação produzida nos territórios
Outra experiência apresentada pela Sapopema reuniu educação ambiental regionalizada e comunicação comunitária como estratégias de participação e produção de conhecimento sobre a Amazônia.
A apresentação abordou processos de formação de professores e desenvolvimento de materiais educativos relacionados à biodiversidade local, além da experiência do Programa Repórteres dos Rios e das Florestas. A proposta parte da compreensão de que moradores dos territórios não são apenas fontes de informação, mas participantes da produção e circulação de conhecimentos sobre pesca, biodiversidade, mudanças ambientais e modos de vida.
Na educação, a metodologia aproxima os conteúdos trabalhados nas escolas da realidade dos estudantes, utilizando espécies, paisagens e conhecimentos presentes nas próprias comunidades. Em Santarém, a Sapopema mantém cooperação com a Secretaria Municipal de Educação para ampliar ações de educação ambiental regionalizada em escolas ribeirinhas de regiões como Tapajós, Várzea, Arapiuns, Arapixuna e Lago Grande.
Na comunicação, jovens e moradores são formados para identificar pautas, entrevistar personagens e produzir registros audiovisuais sobre seus territórios. As reportagens formam, ao mesmo tempo, um acervo sobre as transformações ambientais e sociais vivenciadas pelas comunidades e um instrumento para dar visibilidade às demandas e iniciativas locais.
A experiência se insere nas discussões de ciência cidadã promovidas pela Aliança Águas Amazônicas, que reúne diferentes estratégias para aproximar conhecimento científico, saberes locais, monitoramento e participação social na conservação da Bacia Amazônica.
Mulheres, produção e conservação
O terceiro eixo apresentado pela Sapopema destacou a atuação das mulheres dos rios e das florestas e sua participação na pesca artesanal, agricultura familiar, manejo dos recursos naturais, geração de renda e organização comunitária.
A experiência busca tornar visíveis atividades que sustentam a economia e a vida cotidiana das comunidades, mas que historicamente nem sempre são reconhecidas como trabalho. Além da atuação diretamente ligada à pesca e à produção, as mulheres participam da gestão dos territórios, das organizações comunitárias e da construção de estratégias para enfrentar problemas que atingem suas comunidades.
A abordagem de gênero permite observar também como mudanças ambientais e dificuldades de acesso a recursos naturais repercutem de maneiras distintas sobre homens e mulheres, especialmente quando afetam atividades relacionadas à alimentação, à água, à produção familiar e aos cuidados.
