Soltura de mais de mil e cem quelônios marca 16 anos de conservação na comunidade Correio do Tapará

Dia anterior a cerimônia foi de marcação das tartarugas e tracajás para monitoramento da evolução da conservação 

A comunidade Correio do Tapará realizou, neste sábado, 18 de abril, a soltura de 1.120 filhotes de quelônios, marcando o 16º ano consecutivo da atividade. A ação é resultado de um trabalho iniciado em 2010, que envolve diretamente cerca de 12 coletores responsáveis pela proteção dos ninhos, desde a coleta dos ovos até o acompanhamento dos filhotes nos berçários. Ao longo da semana, a mobilização já vinha acontecendo: desde a sexta-feira, um mutirão reuniu técnicos da SAPOPEMA e moradores para a identificação dos quelônios, etapa que permite o monitoramento posterior das espécies.

O projeto é resultado de um esforço contínuo da comunidade para proteger as áreas de desova e garantir a sobrevivência dos filhotes. O trabalho começa com a coleta dos ovos nas praias e segue com o manejo em estruturas protegidas até o momento da soltura. “Hoje a gente está em um evento de soltura de filhotes, aqui na comunidade Correio do Tapará, que encerra um ciclo de atividades que a comunidade desenvolve ao longo de todo o ano, que é a proteção da praia, o cuidado com os ovos, a eclosão e o acompanhamento dos filhotes até chegar nesse momento”, explicou Neriane Nascimento, consultora técnica da Sapopema .

A rotina de manejo inclui etapas que se repetem a cada ciclo reprodutivo e exigem acompanhamento diário. Após a coleta, os ovos são levados para áreas controladas e, cerca de 60 dias depois, ocorre a eclosão. Os filhotes seguem então para o berçário, onde permanecem por mais alguns meses até estarem aptos para a soltura. “Eles são transferidos para o berçário e acompanhados por mais três meses, até o momento da soltura”, relatou Érica Santos, técnica da Sapopema .

A escola da comunidade participa diretamente do processo, incorporando o tema ao cotidiano dos alunos e contribuindo para a formação de uma geração mais atenta à conservação ambiental. “Quando a gente pensa na soltura dos quelônios, ficamos felizes em saber que os nossos alunos estão sendo formados com essa sensibilidade, não só para o cuidado e a conservação da espécie, mas também pelo respeito pela natureza”, afirmou Naira Silva, diretora da escola local .

O trabalho dos coletores exige presença constante nas praias e nos berçários, conciliando a atividade com outras responsabilidades do dia a dia. “É um desafio, mas é uma coisa muito boa, feita com carinho e com amor. Para mim, é muito importante saber que estamos devolvendo para a natureza”, contou Conceição, coletora e delegada sindical da comunidade . A atuação das mulheres aparece de forma central nesse processo, tanto na coleta quanto no cuidado diário com os ovos e filhotes, mesmo diante das dificuldades logísticas.

Ao longo dos anos, o projeto alterou a forma como a comunidade se relaciona com o ambiente. No início, houve resistência e dúvidas sobre os resultados do trabalho, mas a continuidade das ações levou ao aumento da participação local. “Logo no início encontramos muita dificuldade, mas hoje nos sentimos felizes pelo projeto que desenvolvemos na comunidade”, relatou Jonas dos Santos, monitor do projeto . A adesão gradual dos moradores ampliou o alcance da iniciativa e consolidou a prática de proteção dos quelônios como parte da rotina comunitária.

A assessoria técnica da SAPOPEMA acompanha o projeto desde os primeiros anos, com apoio à estruturação dos berçários, orientação no manejo e suporte às atividades de campo. A presença da organização também se dá na articulação com parceiros, no fornecimento de insumos e no acompanhamento das etapas do projeto, contribuindo para a continuidade das ações e para a organização do trabalho coletivo.

Com 16 anos de realização, a soltura anual de quelônios no Correio do Tapará segue como um marco do calendário local, reunindo moradores, estudantes e parceiros em torno de uma prática construída ao longo do tempo, baseada no cuidado com as espécies e na manutenção das áreas de reprodução.