Repórteres comunitários visitam seringal, produção de farinha e participam de intercâmbio com pescadores e estudantes em Parauá, na região da Resex Tapajós Arapiuns

Comunicadores de 13 municípios do Baixo Amazonas participaram da terceira vivência formativa do programa Repórteres dos Rios e das Florestas na comunidade Parauá, localizada na região da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns. A programação incluiu visita a uma casa de farinha, acompanhamento da extração de látex no seringal, diálogo com estudantes da escola local e conversa com pescadores sobre os desafios da atividade na região

A terceira vivência foi realizada na última sexta-feira (27) no território de uma das repórteres do programa e integra o processo de formação dos comunicadores. A proposta é promover intercâmbio entre jovens de diferentes realidades. “É a terceira vivência formativa no território de um dos repórteres. O grupo vem para conhecer e vivenciar uma experiência em um contexto diferente”, explicou Samela Bonfim, coordenadora da iniciativa. A atividade permite observar dinâmicas produtivas, formas de organização e demandas locais. “Eles acompanham a produção da sociobiodiversidade e também as necessidades do território”, declarou.

Na casa de farinha, os participantes acompanharam as etapas de processamento da mandioca. No seringal, observaram o manejo da seringa e participaram da retirada do látex. Raimundo Basílio Araújo, morador da comunidade, relatou que nasceu e cresceu no local e que aprendeu a atividade com os pais. Ele descreveu o processo desde a limpeza da área até a entrega do produto para comercialização. “A gente limpa, corta a seringa, junta o leite, passa pelo processo de qualhar, prensa, seca e depois leva para vender”, explicou.

Ao comentar a relação com a floresta, Raimundo associou permanência e trabalho. “Eu me sinto feliz. Foi um plano antigo da minha mãe e do meu pai. Eles morreram, mas eu continuei e já ensinei meus filhos também”, afirmou. Sobre a presença dos jovens, relatou que não esperava um grupo numeroso. “Quando eu vi todos vocês, eu me surpreendi, mas fiquei feliz. Para quem trabalha no meio da floresta, receber uma visita dessa é muito bom”, disse. Depois de convidar um dos repórteres a testar o corte da seringa, avaliou o desempenho com “nota 70”, acrescentando que “para quem começou, está ótimo”.

A programação incluiu ainda conversa com pescadores e representantes do núcleo de base da Colônia de Pescadores Z-20 de Santarém. O grupo foi recebido no barracão da escola Frei Marcos, onde escola e moradores recepcionaram com carimbó e diálogo. A diretora da Colônia de Pescadores Daiane Carollini dialogou com o grupo e falou sobre atualizações dos associados e demandas do território.

Alexandre Pimentel, da Colônia Z-19 de Óbidos e do Movimento dos Pescadores do Baixo Amazonas (Mopebam), afirmou que a produção de conteúdos pelos jovens tem contribuído para dar visibilidade às demandas da categoria, especialmente em relação ao seguro defeso. “O repórter está nos ajudando para que chegue a nossa dificuldade aos governantes”, declarou. Ele destacou que o benefício garante renda durante o período de reprodução do pescado. “São quatro meses em que o pescador depende desse recurso para sobreviver, e o comércio municipal também é impactado quando ele não circula”, afirmou.

Morador da comunidade, o pescador Leandro, 44 anos, avaliou a iniciativa como estímulo para a juventude. “É uma coisa para ajudar a juventude a divulgar a nossa região e a nossa cultura”, disse, ao defender maior participação de jovens na comunicação comunitária.

A realização da vivência envolveu planejamento prévio e organização logística para deslocamento dos participantes, que saíram de diferentes municípios e Estados até Santarém e, posteriormente, seguiram por via fluvial até Parauá. Segundo a coordenação, o processo inclui definição de programação, organização administrativa e vistoria da embarcação utilizada. “É um momento planejado com antecedência, que envolve tempo de deslocamento, custos e organização interna”, informou Samela Bonfim.

Para os jovens, a vivência também representa ampliação do contato com ferramentas de comunicação. Vanderson Apurinã, da Terra Indígena Itixi Mitari, no Amazonas, afirmou que a experiência contribui para sua atuação com audiovisual. “Eu nunca fui de aparecer, mas de mostrar as pessoas. Agora estou aprendendo também a me colocar como jovem jornalista”, disse. Sobre os equipamentos recebidos pelo projeto, acrescentou: “Às vezes acontece algo e as pessoas não sabem como se expressar. O audiovisual é um método melhor para trabalhar isso”.

Eliene Sena, do município de Curuá, representante da Colônia Z-66, afirmou que a formação contribui para qualificar sua atuação. “É uma experiência que vou levar para campo para aprofundar o que já faço”, declarou. Sobre os equipamentos, disse que “veio para fortalecer o nosso trabalho enquanto repórteres”.

Luiz Nobre, representante de comunidade da região do Lago Grande, em Santarém, afirmou que as tecnologias permitem registrar tanto a produção quanto as pressões enfrentadas. “O território produz. Com essas ferramentas, podemos mostrar o que fazemos e também as ameaças que enfrentamos”, disse.

A vivência em Parauá integrou atividades práticas, produção de conteúdo e avaliação do ciclo formativo, que ocorre a cada seis meses. O encontro reuniu jovens de diferentes territórios para troca de experiências e acompanhamento das atividades produtivas locais, articulando comunicação comunitária e debate sobre políticas públicas relacionadas à pesca e ao uso dos recursos naturais.

A vice-coordenadora Adria Oliveira explicou que os repórteres são jovens vinculados a instituições ligadas à pesca artesanal, agricultura familiar e outras organizações comunitárias, que atuam em seus próprios territórios. O projeto busca fortalecer capacidades já existentes entre esses jovens para que possam registrar e divulgar o que ocorre em suas comunidades. “O papel desses jovens é dar visibilidade aos desafios e às potencialidades que existem dentro do território”, afirmou.

Adria destacou que os conteúdos produzidos abordam temas como agroecologia, processos produtivos e formas de organização local. “Eles mostram o que acontece nas comunidades, apresentam lideranças e processos de transformação, no sentido de fortalecer as lutas do território”, disse. Para ela, a comunicação contribui para ampliar o alcance das pautas locais. “A principal função é fazer com que esses elementos cheguem a um nível mais macro, para que as pessoas saibam o que está acontecendo ali”, declarou, ao mencionar pressões como mineração, uso de agrotóxicos e impactos sobre a pesca.

O programa conta com a parceria direta do Mopebam e apoio da Fundação Moore e The Nature Conservancy Brasil. Lucilene Amaral, coordenadora de projetos de conservação de base comunitária na TNC, afirmou que a iniciativa fortalece a comunicação produzida pelas próprias comunidades. “O programa traz a mensagem a partir do olhar de dentro, mostrando conservação e cadeia produtiva”, declarou, ao mencionar temas ligados à pesca artesanal e à conservação dos recursos aquáticos.

Fotos: Vanderson Apurinã e Ericleya Marinho.